O olho do furaçao
Janeiro começou como o olho de um furacão. Não havia o impacto direto da destruição, mas tampouco havia paz. Eu estava ali — e ao mesmo tempo não estava. Presente sem presença. Cercada por ventos fortes que giravam ao meu redor enquanto, por dentro, tudo parecia suspenso.
A alegria da família em casa por trouxe calor, riso, movimento. Houve mesas cheias, conversas longas, a sensação de pertencimento que conforta. Mas, mesmo nesses momentos, algo em mim flutuava por cima da cena, como se eu assistisse à minha própria vida sem conseguir pisar totalmente nela.
O medo não deu trégua. Medo de perder o trabalho, ansiedade por não ter dinheiro suficiente. A constante conta mental de “até quando dá para aguentar”. E, misturado a tudo isso, as lembranças de dezembro — da vontade que surgiu, da esperança que ousou aparecer, da sensação breve de que algo novo podia nascer.
As coisas caminham. O mundo segue, mas eu não caminho junto. Eu flutuo.
Em um impulso quase desesperado, entrei numa maratona de escrita. Obriguei-me a começar a editar o livro, a mexer no texto, a lapidar frases com a ideia fixa de finalmente apresentá-lo. Era como se eu dissesse a mim mesma: “agora ou nunca”
E então… parei.
Deixei de ler.
Deixei de escrever.
Deixei de desenhar
Outra vez
O “não sei o quê” voltou a tomar conta do meu corpo e da minha mente. Não é medo. Não é preguiça. Não é tristeza clara. É outra coisa — algo sem nome, sem forma, impossível de explicar ou mostra. Um congelamento interno que impede o movimento, mesmo quando a vontade ainda existe em algum lugar distante
O anjo de vestido amarelo ainda existe na memória recente. A esperança não morreu. Mas agora ela divide espaço com a realidade crua: boletos, decisões, responsabilidades que não esperam cura emocional.
Como fazer algo que eu já não consigo mais fazer? Como querer aquilo que, ao mesmo tempo, parece impossível de querer? Alguns dias foram eclipsados por brigas com a família. Palavras atravessada, tensões antigas reaparecendo, sombras momentâneas cobrindo o cotidiano. Mas nem isso conseguiu apagar completamente o sol. Ele continuou ali, atrás das nuvens, insistente.
Janeiro segue assim entre o movimento externo e a paralisia interna, entre a esperança que ainda pulsa fraca e o cansaço de ter que se reinventar mais uma vez
Não é um recomeço triunfal. É apenas mais um mês sendo atravessado — com o corpo aqui e a alma tentando alcançar